Reconsiderações sobre Tropa de Elite
Reatando com um filme maltratado pelo contexto
A unanimidade não existe. E mesmo quando parece existir, essa impressão não sobrevive ao crivo do tempo. Alguns dos filmes considerados os melhores de sua época por muitos, que até ontem eram obras aclamadas e irretocáveis, acabam passando por um revisionismo anos depois. Aconteceu com a trilogia O Senhor Dos Anéis, está acontecendo com Matrix, e há pelo menos uma década, vem acontecendo com Tropa De Elite.
Muitos são os motivos que podem derrubar uma obra audiovisual do seu pedestal. O envelhecimento do público e baixa adesão das novas gerações. O ritmo, que não faz mais sentido com os hábitos de consumo atuais. A estética ou os efeitos visuais que ficam datados, ou até mesmo as fanbases, que de tão insuportáveis, deixam as obras malvistas. São esses os motivos que fazem com que O Senhor dos Anéis seja considerado brega hoje em dia, Matrix seja filosoficamente raso e Clube da Luta tenha se tornado um filme de redpill.
No caso de Tropa de Elite, e aqui focaremos apenas no primeiro filme, não foram suas qualidades técnicas que o tornaram o patinho feio do cinema nacional nos últimos anos. Foram os quase 15 anos de tensões políticas, crises e o estado distópico em que o mundo se encontra. O contexto tornou esse filme, no mínimo, indigesto.
Tropa de Elite é um dos melhores filmes da primeira parte dos anos 2000. Note que eu não disse “um dos melhores filmes nacionais”, e sim um dos melhores filmes. Hollywood produziu ótimos filmes policiais entre 2000 e 2010, e o filme de José Padilha é páreo para todos eles.
O ritmo, a montagem e suas cenas de ação são tecnicamente impecáveis. O elenco, é digno de disputar a categoria de Melhor Escalação de Elenco, criada esse ano no Oscar. Com atores perfeitos em seus papéis e pelo menos uma dúzia de personagens marcantes, que seguem no imaginário popular até hoje. Não parece que se passou um dia para esse filme de quase 20 anos.
Porém, quando falamos de roteiro e de alguns recursos narrativos utilizados, a crítica tem um ponto bem claro: o filme erra o tom discursivo, pesa a mão naquilo que quer expor e utiliza os recursos errados para transmitir suas ideias e intenções. Essas questões levantadas pela crítica (na época do lançamento, e ao longo dos últimos 19 anos), somadas ao contexto politico do país e nossa história recente, minaram a boa vontade de parte das pessoas que falam sobre cinema, em relação a obra prima de Padilha.
Não ajuda muito que as obras seguintes do diretor tenham sido, no mínimo, questionáveis. José Padilha cometeu aquele remake sem sal de Robocop (2014), tirando toda a substância do personagem e visão da obra. Em O Mecanismo (2018 - 2019) uma das séries mais merdas da Netflix, ele deturpa fatos para romantizar a operação lava jato e babar ovo de Sérgio Moro e companhia — Além de ser mal produzida, mal atuada e mal escrita. Também para a Netflix, Padilha dirigiu os primeiros episódios de Narcos (2015-2017), definindo todo o tom e ritmo da produção. Embora, essa sim, seja uma das melhores séries da Netflix, ela foi acusada de estereotipar demais personagens e a cultura latina, o que não ajuda o currículo do diretor.
Mas é muito fácil olhar para o filme agora, com o discernimento e a mínima noção que (as vezes) eu tenho e pedir para que olhemos a obra com outros olhos. É muito fácil, hoje, identificar todos os problemas e méritos do filme, conseguir separar uma coisa da outra, e fazer com que gostemos desse filme outra vez, mesmo com as devidas ressalvas. Mas a verdade é que a cada vez que assisto a esse filme, sou impactado positivamente ou negativamente, de uma forma diferente. O que me leva as primeiras vezes que assisti.
O ano era 2007. Tropa de Elite ainda não havia estreado nas salas de cinema, mas isso não o impedia de já ter sido visto por milhares de pessoas e de ser um fenômeno da cultura pop brasileira. O filme de José Padilha podia não estar passando na tela grande, mas já gerava polêmicas por todo o país. Era assunto nos mais variados níveis da sociedade, programas de TV, e é claro, estava lá, rodando no nosso aparelho DVD.
Meus primos, irmãos e eu, com idades entre 7 e 11 anos, já havíamos assistido pelo menos umas três vezes, antes mesmo que a discussão de ser um filme violento chegasse nos nossos pais. A nossa empolgação era comparada a de assistir a um dos filmes da Marvel, quando a Marvel era empolgante. As músicas, a ação, as frases de efeito, as frases cômicas, os personagens, era incrível! Poucas eram as falas que não havíamos decorado. E essa empolgação também era presente nos adultos (hoje eu entendo o motivo), era o filme da década!
Por que estou contando isso? Bom, não é para questionar o porquê de um filme desses estar na mão de crianças — embora eu devesse. Também não é para debater sobre a pirataria sem precedentes, que o filme sofreu (isso já foi debatido a exaustão na época e todos esses debates estão obsoletos). Mas é porque, recentemente, eu tive a oportunidade de revisitar a obra com alguém que, inacreditavelmente, nunca havia assistido. E embora, tanto eu quanto a pessoa, tenhamos achado um filme inacreditável de bom, poucos filmes foram tão desconfortáveis quanto esse “reencontro” com essa obra que marcou a minha infância.
Ao apresentar o filme para alguém que não o assistiu na época, fica evidente o quanto o contexto mudou a nossa percepção sobre a obra. Seu enredo se tornou ainda mais cruel e até as frases cômicas (que ainda repetimos em memes e figurinhas de WhatsApp) se tornaram trágicas. Chega a ser irônico, que o filme tenha me parecido mais brutal hoje do que quando eu tinha 11 anos de idade.
Não que em 2007 não houvesse questionamentos e discussões a respeito do filme e sua visão de mundo e política, houveram muitas. Mas nada se compara a repercussão e a dimensão que as coisas tomaram ao longo dos anos seguintes. Quando o filme foi lançado, esses debates eram pautados apenas pela mídia tradicional. Muito se falava sobre a violência gráfica e sobre as ações policiais tomadas no filme, sobre seu protagonista polêmico ou como o filme era “realista”.
Os acontecimentos dos anos seguintes e o surgimento das redes sociais (a internet era só um rascunho em 2007) foi o que fizeram com que o filme fosse dissecado e confrontado a exaustão e que surgisse um sentimento de rejeição ao longo dos anos. Criadores de conteúdo (odeio esse termo), cinéfilos, críticos e entusiastas passaram a evitar o filme, deixando-o fora de suas listas e guias de consumo, por considerá-lo um filme fascista. O que eu já adianto, é um rótulo bem simplório e equivocado, um carma que o filme herdou com o passar dos anos.
O contexto e a política do nosso país evidenciou o sentimento punitivista que a nossa sociedade possuía, e ainda possui. O cidadão de bem, além de um total desprezo pelos direitos humanos, possui quase um fetiche pela vingança e punição, mesmo sabendo da ineficácia de tais métodos. Basta lembrar da fixação e da expectativa que o público tinha na continuação direta e imediata de Tropa de Elite, que mostraria o rosto do traficante Baiano, desfigurado por um tiro de calibre 12. Era quase uma lenda urbana que o segundo filme começaria com tal cena (e muitos ficaram decepcionados por não ter). Muitos documentários, compilados de operações policiais e filmes amadores de mesmo tema, foram vendidos como se fossem uma continuação, ou anunciados como “mais violento que Tropa de Elite”.
Outra discussão à qual a obra seria amplamente submetida, é a quantidade de crimes que o protagonista e “herói” do filme, Capitão Nascimento, comete ao longo de 1H58 de filme. Tortura, assassinato, abuso de autoridade e violação dos direitos humanos, só para citar alguns. Crimes cometidos por um personagem que se coloca acima da lei e da justiça, em nome de um moralismo míope, baseado em um fragmento da realidade. Nascimento é o clássico homem comum com uma missão, e não há nada mais perigoso que um homem comum com uma missão. Um Charles Bronson tupiniquim, mas dentro do funcionalismo público e com o armamento do estado a sua disposição.
É claro que existem muitos outros personagens da cultura pop que possuem os mesmos problemas que Nascimento. Oitenta por cento dos ícones hollywoodianos cometem os mesmos crimes que o nosso protagonista. Na maioria dos casos, são personagens motivados claramente por vinganças pessoais e que são tratados nas obras como psicologicamente instáveis. Comportamentos inadmissíveis no caso de um agente e representante da lei, como Nascimento. Talvez o mais próximo seja o personagem Harry Callahan na série de filmes Dirty Harry, um policial linha dura de São Francisco. Mas Clint Eastwood era apenas um homem, enquanto em tropa de elite, é toda uma força policial agindo assim.
Nos quadrinhos, a Marvel tem sofrido com um dilema parecido. O Justiceiro (Punisher) foi muito afetado pelo contexto político dos últimos anos e adotado por grupos extremistas. Mesmo sendo um personagem que na maioria de suas histórias é tratado como insano, desequilibrado e perigoso, a editora ficou entre aposentá-lo ou adotar uma outra abordagem, o desvinculado das autoridades legais. As armas de fogo foram trocadas por espadas e laminas, a clássica caveira no peito foi descaracterizada, tudo para amenizar o que o personagem passou a representar.

Embora eu não compre a guerra cultural em que Tropa de Elite foi envolvido, eu concordo com todas as críticas feitas ao filme e a direção, mesmo que algumas dessas sejam afetadas pelo contexto e por certa ideologia. Eu concordo que José Padilha erra ao retratar um personagem como Capitão Nascimento de forma heroica e messiânica. Como alguém que entendeu e decifrou o “sistema” e o coloca como um detentor da verdade, em uma narração em off presunçosa e onisciente que permeia todo o filme — mais um erro que se repetiria em O Mecanismo.
O diretor também escolheu uma simplificação cínica, quando tratou o “sistema” como uma entidade e, pelo menos no primeiro filme, não deu muito nome aos bois que fazem esse sistema. Em muitos momentos, o filme é sim apenas um estereótipo de ação do Rio de Janeiro e da segurança pública Brasileira.
Mas ainda assim, existe um revisionismo injusto e uma má vontade em relação ao filme. Embora eu seja MUITO a favor de analisar e dissecar as obras politicamente, criticando visões e abordagens, eu também tento não atribuir ao cinema, uma obrigação e um fardo, que quando não atingidos, tornam automaticamente em um filme ruim. Talvez se não fossem esses recursos, que hoje consideramos errôneos, como a narração por exemplo, o filme não funcionasse e nem estaríamos falando sobre ele em 2026.
No segundo filme, de 2010, Tropa de Elite II - O Inimigo Agora é Outro, o diretor parece levar a história para um outro caminho, amenizando ou compensando algumas coisas que foram criticadas no primeiro filme. O Resultado? Outro filmaço. Mas sem sutilezas, presunçoso e com alguns ruídos que fez com parte do público simpatizasse com a milícia que o filme tenta criticar.
Assistir a Tropa de Elite tantos anos depois, é sempre uma experiência agridoce. É um filme incrível, mas desconfortável. É um filme bem simples, quando analisamos friamente, mas para o bem ou para o mal, ele é impactante como poucos filmes conseguem ser. Devemos fazer desse desconforto um ponto de reflexão, ao invés de simplesmente rotular a obra como isso ou aquilo.
Tropa de Elite é uma das obras mais importantes e grandiosas do cinema nacional, sobretudo pela visibilidade que trouxe para nossas produções. O filme erra em muitos aspectos, tropeça no contexto do país, possui incongruências que devem ser apontadas, mas nunca será um filme ruim por conta disso. Pois o filme erra em coisas que um filme não tem a obrigação de acertar.



