Obituário do Twitter
Morre o Inesquecível. Morreu de morte matada, mas pense numa vida bem vivida.
No final de 2024, eu deletei o meu Twitter. Não apenas por princípios, ou por ideologia, mas porque, após ficar 40 dias sem, durante o bloqueio no Brasil, vi que já não fazia mais sentido. O Twitter já estava morto. E ele morreu muito antes do Alexandre de Moraes fazer valer a soberania nacional no fatídico 30 de Agosto.
O Twitter foi uma parte importante da minha vida (ok, escrevendo isso percebi que é meio triste), então esse encerramento de ciclo não poderia passar em branco. Me peguei pensando que devia fazer um obituário. Eu nem sei fazer um obituário. Acho que nem nunca li um obituário. Talvez alguém já tenha até feito, mas vamos lá.
Ele tinha apenas 16, já vinha doentinho o coitado, mas era um menino ainda. Tinha muita vida pela frente quando, em 27 de Outubro de 2022, o matador de passarinho bilionário pagou $44 bilhões de dólares pelo direito de desligar os aparelhos.
Sei que em tempo de internet, 16 anos é uma eternidade. Poucos sites, serviços e personalidades duram tanto. Mas aquele passarinho, mesmo já tendo passado por tanta coisa, era jovem de espirito.
Talvez você discorde, diga que ele não morreu. Mas você está errado. O Twitter morreu no final de 2022, o passarinho que o simbolizava, morreu um pouco depois, em meados de 2023. O que existe hoje, com outro logo, e com um nome que me recuso a utilizar, é um corpo putrefato. Um zumbi, cuja única função é acariciar o ego de um cinquentão com muito dinheiro e nenhum amigo.
Mas, em respeito ao defunto, não vamos tornar esse memorial um campo de intrigas e debates políticos. Na verdade eu vou, mas deixo isso pro final do texto.
Minha história com o Twitter começou em 2009. Nunca tive muitos seguidores, nem era de Twittar muito, mas durante 13 anos, eu o acessei e rolei por toda a timeline, todos os dias. Um relacionamento que logo se tornou abusivo e que nem sou capaz de calcular os danos neurológicos causados.
Desde os meus 13 anos, acompanhei via Twitter, umas oito eleições, entre municipais e presidenciais, um impeachment, quatro eleições norte-americanas, uma pandemia e uma CPI para apurar as mortes dessa pandemia. Li sobre um quase golpe de estado, algumas greves, vi um sujeito pendurado num caminhão, quatro Copas do Mundo, sendo que uma delas foi no meu país e esse mesmo país levou de 7 a 1.

Na cultura pop, que era uns 50% de tudo que eu consumia no Twitter, acompanhei umas 12 edições do Oscar, inúmeras estreias da Marvel, as fofocas da CCXP, fenômenos como Game of Thrones e Stranger Things. Tivemos delírios coletivos, como o SnyderCut e o cara que viu Bacurau 11 vezes pra pegar mulher. E durante uns 10 anos, todo ano foi o ano do podcast.
Mas nem tudo no Twitter era meme. Neste tempo em que fui viciado nessa rede social, acompanhei inúmeras discussões importantes. Movimentos como o #BlackLivesMatter e o #MeToo surgiram ali. Debatemos sobre o capitalismo, sobre a cultura do cancelamento, a cultura woke e a Terra plana. Conversamos sobre o gigante que acordou em 2013, e se era melhor ter deixado ele dormir um pouco mais.
Grandes questionamentos, importantes para a humanidade, surgiram no Twitter. Qual o limite do humor? Afinal, o vestido era azul ou dourado? monogamia ou poligamia? E um chefe de estado uma vez perguntou: o que é golden shower?
Nesses 16 anos em que o Twitter esteve entre nós, ele se tornou a Biblioteca de Alexandria do nosso século. Acompanhamos a história através dele. E escrevemos parte dessa história, primeiro em 140 caracteres, depois em 280. Tivemos as threads (ou fios), salas de áudio e até Storys. E no último dia dessa função, geral postou foto pelado.
Mas e agora? Onde vamos acompanhar a mais nova treta do Felipe Neto? Como vamos ficar sabendo do mais novo exposed? Como vamos ter outro MarmitaGate? Onde vamos criticar a menina que ganhou sorvete Bacio di Latte do pai?
Antes de tirar a remela dos olhos, abríamos o Twitter e víamos o mundo acontecer. Presenciamos a renúncia e escolha de um papa. Soubemos da morte da rainha, que achávamos que era imortal, da morte do rei do futebol e do rei do Domingo Legal.
Foram tantos eventos importantes, que escreveria por meses e não seria o suficiente. Tiveram outros eventos menos importantes também, mas que valem a pena citar. Alguns Superbolws, algumas edições do Rock In Rio, algumas Olimpíadas, um Brexit e duas guerras recentes.
Foi uma vida intensa, mas devemos deixá-lo ir. Talvez tenha sido melhor assim. Andava em más companhias o menino Twitter. Era muito frequentado por gente estranha, fãs do bigodinho esquisito, com símbolo de cata-vento e mania de ficar levantando o braço e bebendo leite do nada. Acho que foi até por isso que aquele sujeito pagou um dinheirão nele.
Talvez eu deva até agradecer aquele maldito. Foi graças a ele (e ao Xandão) que eu me livrei desse relacionamento abusivo e larguei esse vício. Já não era uma rede social agradável para se estar, ideologicamente e tecnicamente também. Desde 2016 quando tiraram a timeline cronológica, o site já não era mais o mesmo e a experiencia de usuário era cada vez pior. Talvez a gente deva ver a aquisição, a mudança do nome e o fim do passarinho azul como uma eutanásia, um golpe de misericórdia. Um golpe de misericórdia de $44 bilhões de dólares.
E “desligar os aparelhos” parece uma metáfora pertinente, pois foi a primeira coisa que o Kiko dos Foguetes com problema hormonal fez. Suas primeiras medidas foram demitir 80% dos funcionários, fechar escritórios ao redor do mundo e reduzir a capacidade de processamento e servidores.
Quem ainda usava o Twitter nessa época, notou que a usabilidade piorou, as imagens e vídeos não carregavam, as mensagens da DM sumiam e o site tinha alguns apagões, que lembravam muito seu início, quando foi cunhado o termo “baleiar”. Erros que não aconteciam há alguns anos, mas que voltaram a ser comuns na gestão do bilionário desenhado pelo Rob Liefeld.
O Twitter sempre foi uma rede social nichada e contraditória. Tinha menos usuários que o Pinterest, mas fazia um barulho infernal. Um lugar onde você poderia conhecer as pessoas, projetos e ideias mais diversas, ou se enfiar na bolha mais fechada possível.
No Twitter tudo era intenso e o tuiteiro era diferenciado. Era o lugar dos descolados, dos cinéfilos, dos fetichistas, dos cirandeiros, dos artistas, de quem já tinha ligado o foda-se ou de quem vivia de cinismo e cigarro. Mas também era o lugar do faria limer, do tiozão patriota de óculos escuros, do conservador ou do zueiro opressor com tendências fascistas. Lá só não era lugar de gente normal. Esses ainda estão no Facebook, que já morreu também, mas que nem merece um obituário.
Rest in peace, ou Press F. Para os mais jovens.



Eu vivi pra ver a fênix na vida real! Que tenha vida longa esse substack!