O Monstro do Pântano de Alan Moore
Um dos primeiros trabalhos do autor britânico, é também uma das obras mais impactantes dos quadrinhos ocidentais. O Velho é foda desde novo.
*texto publicado originalmente em Agosto de 2020
The Saga of the Swamp Thing #20-#64 — 1984-1987
By Alan Moore, Stephen R. Bissette e John Totleben
Em 1984, Alan Moore não era o mago dos quadrinhos e o autor consagrado que conhecemos hoje. Tampouco era um mago, quando foi chamado para escrever A Saga do Monstro do Pântano para a DC Comics. Aos 30 anos, tinha em seu currículo algumas histórias bem-sucedidas para a 2000 A.D., Warrior e Marvel U.K., mas era um estreante e total desconhecido para o mercado americano.
Ao longo das 45 edições em que esteve à frente do título (1984–1987), Moore, com os desenhos de Stephen R. Bissette e John Totleben, entregou roteiros profundos, audaciosos e utilizou técnicas bastante experimentais em suas narrativas. Façanhas que provocaram e inspiraram a renovação de toda uma indústria (revolução que ele iria fazer de novo em Watchmen, dois anos depois).
Então, antes de mergulharmos nos brejos da Louisiana e na história de Alec Holland, quero pontuar suas influências e seu impacto, não só nos quadrinhos, mas na cultura pop dos últimos quarenta anos. Quando eu terminar, talvez você concorde com o que eu vou dizer a seguir:
“Pós Era de Ouro, os quadrinhos de super-heróis mais importantes são: Watchmen e O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller. Depois de A Saga do Monstro do Pântano.”
Escrevendo o Monstro do Pântano, Alan Moore foi o responsável pelo fim do Comics Code Authority, órgão de autorregulação e censura dos quadrinhos, criado nos anos 50. Ao não ter o selo aprovado em The Saga of The Swamp Thing #29 por ser considerada uma história muito pesada, fez com que a DC abandonasse o código.
Essa subversão e o experimentalismo de Moore, com seus temas sociais e adultos, também inspiraram outros movimentos dentro da DC Comics. Embora originalmente não fizesse parte do selo, o Monstro do Pântano foi inspirador para que a lendária editora Karen Berger criasse o selo Vertigo.
Karen Berger buscava mais liberdade criativa, maturidade, diversidade de temas e histórias, além de uma remuneração e distribuição justa dos direitos autorais para os autores e artistas, briga que Alan Moore sempre comprou.
Berger e Moore também são os grandes responsáveis por um movimento conhecido como a “Invasão Britânica dos Quadrinhos”, onde diversos quadrinistas ingleses passaram a publicar nos Estados Unidos. Autores como Neil Gaiman, Grant Morrison, Peter Milligan, Jamie Delano, posteriormente Garth Ennis, Mark Millar e tantos outros.
Mas a contribuição desse título que considero minha favorita é o surgimento de John Constantine, criado por Alan Moore, Stephen R. Bissette e John Totleben em The Saga of The Swamp Thing #37.
O mago inglês (Constantine, não o Moore) apareceu como um coadjuvante inspirado no vocalista do The Police, Sting. Mais tarde, ganhou sua própria revista (o Constantine, não o Sting), Hellblazer, pelas mãos de Jamie Delano. Constantine, com seus cigarros e seu pulmão prejudicado, se tornou um dos personagens mais fodões da DC, mais conhecido até que o próprio Monstro do Pântano.
Só algumas das contribuições dessa fase para a história das histórias em quadrinhos. Um titulo tão disruptivo, que influenciou criativamente e comercialmente os quadrinhos norte-americanos.
Precedentes, origens e o período pré Alan Moore
O Monstro do Pântano (Swamp Thing) foi criado em 1971, pelo roteirista Len Wein (sim, o mesmo mano que criou o Wolverine) e o artista Bernie Wrightson, para a coletânea de histórias de terror House of Secrets #92. Essa história curta se passa no início do século XX e narra a tragédia de Alex Olsen, o cientista assassinado, que retornava como uma criatura aterrorizante do pântano. Sim, nessa primeira versão era Alex e não Alec, e o personagem nem falava.
No ano seguinte, o personagem ganhou uma revista própria, que durou de 1972 a 1976, com 24 edições por Wein e Wrightson. A origem foi recontada para que se passasse nos anos 70 e o Monstro do Pântano, agora sim Alec Holland, ficou menos disforme e ganhou um tom mais heroico. As histórias dessa primeira fase foram marcadas pela busca de Alec por uma cura, enquanto lutava contra zumbis, alienígenas e cientistas loucos. Histórias e vilões padrões do gênero de terror.
O personagem ficou na gaveta até 1982, quando a DC decidiu retomar com o título. Essa retomada veio para aproveitar o lançamento de um filme, dirigido por Wes Craven.
A revista passou a se chamar “A Saga do Monstro do Pântano”, era escrita por Martin Pasko e desenhada por Tom Yeates. Nessa segunda fase, Alec Holland viaja por lugares exóticos, ainda buscando recuperar sua humanidade, enquanto enfrentava suas habituais ameaças. Nessas aventuras foram adicionados demônios, bruxas e possessões, mas isso não impediu que as histórias se tornassem repetitivas após algumas edições.
Martin Pasko ficou à frente do título até a edição #19 e a revista beirava o cancelamento quando Len Wein, agora editor, decidiu arriscar e ligar para a Inglaterra. O personagem, nunca mais seria o mesmo.
A era Alan Moore
…Imaginaram que houvesse chagado ao limite. Não se iludam mais. Não há limites.
A primeira história de Alan Moore com o título de “Pontas Soltas” é exatamente isso. Uma história para amarrar as pontas soltas deixadas pela equipe criativa anterior e preparar terreno para o primeiro arco e a desconstrução total do personagem.
Essa edição já tem um texto bem mais poético e próximo da literatura clássica, com uma abordagem filosófica e existencial. Elementos raros nos quadrinhos da época, ainda mais nas edições mensais.
Terror físico, suspense e monstros somaram a um horror psicológico e sinestésico. A ficção científica foi adicionada, mas sem perder os elementos místicos e sobrenaturais. A ambientação também mudou. Não eram mais aventuras em lugares remotos e que causavam medo. Era um terror mais urbano, mais próximo, cheio de tragédias e que causava repulsa. Um horror sofisticado, como a própria DC começou a vender.
Antes eu só conhecia a periferia do medo…e agora cá estou, no meio da cidade grande.
Um dos primeiros feitos de Alan Moore à frente do título, foi reformular todo o conceito do personagem. Sua origem misteriosa, foi substituída por uma explicação científica. Na edição #21 - Lição de Anatomia, a criatura é dissecada, no sentido literal e figurativo da palavra. Descobrimos então que o humano não se tornou monstro, e que o monstro nunca foi humano.
Essa desconstrução ambiciosa do personagem, fez da edição 21, a segunda escrita por Moore, a edição mais famosa e mais aclamada do personagem. Calcule o impacto dos leitores, no meio dos anos 80, ao descobrirem que o personagem que acompanhavam há tantos anos, não era o que eles pensavam. Tudo isso numa revista mensal, regular e dentro da cronologia.
Mas essas mudanças completas no conceito e na origem do personagem não foram suficientes. Em uma jornada de autoconhecimento e existencialismo, Alan Moore desconstrói esse personagem mais algumas vezes. Ele fez do monstro uma planta, depois um elemental, do elemental uma consciência coletiva, até torná-la um deus.
Não me deixaram ser humano…e me tornei…monstro.
Não me deixaram ser monstro…e me tornei…planta.
E agora…Você não vai me deixar…Ser uma planta.— Alec Holland, o Monstro do Pântano.
Toda essa jornada, ao longo das 45 edições, traz também a evolução de Moore como autor. Vemos o desenvolvimento de algumas ideias, crenças e conceitos que seriam amplamente trabalhados com o Doutor Manhattan, em Watchmen (1986) por exemplo. A alienação desses personagens em relação a humanidade e a crítica sobre a moral dos super-heróis, é um tema muito recorrente nas obras do barbudo. Além de Watchmen e Monstro do Pântano, é amplamente trabalhado em Miracleman.
Não só do Pântano, mas Americano
…E as ondas se propagam América afora. Por meio das mentes mais torpes.
Agora que a criatura da Louisiana estava consolidada, era hora de Moore dissecar os Estados Unidos da América. É irônico que um autor britânico, da remota Northampton, tenha descrito tão bem os EUA, seus problemas e necessidades. Um retrato perfeito do século XX por aquelas bandas.
Em Gótico Americano (arco de histórias, a partir da edição #37), Moore cria uma verdadeira road trip pela América, passando por cidades pequenas, incorporando lendas urbanas, mitos e os fatos históricos de cada lugar. O que evidencia seu amplo conhecimento e seu trabalho de pesquisa excepcional. Quem leu Do Inferno (1989-1996), sabe o quanto esse cara pesquisa.
Foi ao longo desse arco que temas importantes como pautas ambientais e sociais foram levantados. Algumas das histórias mais impactantes tratavam do racismo, da violência doméstica e desigualdade social, que infelizmente, não ficaram nos anos 80. A passagem inteira de Moore pelo título é extremamente política, o que a torna ainda mais relevante e atemporal.
A cultura armamentista, o falso moralismo americano e até o conceito de brucutu dos anos 80 foi provocado. Sobrou pra todo mundo. Até o Batman e a Liga da Justiça foram tirados de seus pedestais.
Arte e Narrativa Visual
Quadrinhos não são textos ilustrados. A nona arte é a junção de narrativa visual, com a parte escrita, dos diálogos, cores, balões e narrações, formando uma unidade. E nesse aspecto, A Saga do Monstro do Pântano também consegue ser impecável e revolucionária.
Com desenhos rústicos, mas cheios de detalhes, Stephen Bissette, John Totleben e depois, Rick Veitch, entregaram páginas deslumbrantes. As expressões, texturas e cenários criaram uma ambientação perfeita de terror e melancolia.
Os artistas traduziram muito bem o sentimento que os textos metafóricos e poéticos de Moore sugerem. As cenas mais pesadas causam as sensações que um horror sofisticado deve passar. É grotesco, psicodélico e brutal quando tem que ser.
Um dos elementos que mais gosto, são os designs de personagens. A proposta do monstro em constante mudança, fez com que os artistas criassem várias caracterizações. A aparência do monstro se altera com as estações ou para cada vegetação ou geografia que o personagem se apresenta, além de e pontuar passagem de tempo.
A diagramação das páginas, molduras e o uso não convencional dos quadros e balões, fizeram do Monstro do Pântano, uma das obras mais experimentais e disruptivas deste período. Elementos pensados para transmitir sensações e utilizar o máximo potencial da mídia quadrinhos.
As cores de Tatjana Wood, completam o espetáculo. A colorização viva, com cores quentes, contrastam e complementam o clima de terror.
Após quatro décadas, o trabalho escrito e idealizado por Moore, com a liderança dos editores Karen Berger e Len Wein, a arte exuberante de Stephen Bissette, John Totleben, Rick Veitch e as cores de Tatjana Wood, ainda é uma leitura inesquecível. É um alinhamento de planetas, onde cada artista era o ideal para o trabalho, com as pessoas certas e no momento certo.
Um paulista diria, que esse não é um simples gibi, é uma experiência! Seja pela qualidade técnica e narrativa dessas histórias, seja pela revolução que causou na nona arte ou só porque a história é boa pra caralho.





