Escrevendo no Pelo
Divagações sobre escrita, Inteligências artificiais e uma internet mais humana
Eu não me considero um escritor. Nem acho que escrevo muito bem, eu no máximo sou alfabetizado. Mas eu escrevo mesmo assim.
Embora eu não saiba o que é uma oxítona ou uma paroxítona, não entenda muito bem o uso da crase e ainda não tenha adotado o novo acordo ortográfico (que já tem quase 20 anos), eu me viro. Eu sei me comunicar razoavelmente bem, meus e-mails do trabalho são compreendidos e acho que não irrito ninguém com meus erros gramaticais no zap.
São algumas coisas que eu devia ter aprendido na escola e que agora eu sou acomodado demais para aprender. Vou driblando a gramática, não por desprezo a língua portuguesa, que acho belíssima, e sim porque sou meio preguiçosão mesmo. Meu estilo de escrita é 90% feeling e 10% gramática.
As vezes eu coloco virgulas onde deveria ter um ponto final e sou meio verborrágico, mas vou levando. Se eu não souber escrever Terça-Feira, eu mudo a reunião para a Quarta. Mas eu me recuso a recorrer as famigeradas Inteligências Artificiais. — Tá, eu sei que estou usando uma neste momento com o corretor ortográfico do celular, eu não sou inocente. Mas você entendeu!
Não me entenda mal, eu não sou totalmente contra o uso das IAs Generativas. Eu acho que elas vão meter o planeta e a humanidade no rabo? Acho. Mas não é algo que dá para voltar atrás. Não há muito o que possamos fazer, a não ser entender, contextualizar e lutar por um avanço minimamente saudável e regulamentado.
Sei que as IAs representam um avanço incalculável no campo tecnológico, um avanço comparado com a criação da própria internet. E para algumas profissões, elas tem sido bem uteis no dia a dia, mas eu as deixo bem longe dos meus textos.
Pessoalmente, eu nem consigo achar muita função para uma IA generativa. Uso levemente o Copilot (IA da Microsoft, que roda com o motor do ChatGPT e está integrado com todo o pacote Office) que organiza meus e-mails, monta cronogramas, localiza arquivos, me lembra fórmulas do Excel, e sim, até me ajuda com algumas dúvidas sobre gramática, mas não passa disso.
Textos escritos por IA, seja o ChatGPT, Copilot, Claude ou aquela tranqueira de Gemini, sempre me causam um estranhamento. Sempre que leio algum, percebo algo diferente. E sinto que sou bom o suficiente para dizer que tem algo errado, mas não tão bom a ponto de dizer o que está errado. Os textos são gramaticalmente impecáveis, bem estruturados e com um vocabulário infinito. Ainda assim, são em sua maioria genéricos, rasos e sempre parece faltar ou sobrar alguma coisa. São conjuntos de frases que não possuem voz, pois uma IA não pode se posicionar a respeito de nada, enquanto até o mais imparcial dos textos feito por um humano sempre terá um viés.
É claro que é aceitável usar o chat GPT para textos meramente técnicos, institucionais ou instrucionais. Ele é muito bom em descrever, resumir ou orientar processos e passar instruções claras. Também sou empático com quem usa a IA como um grande gerador de lero-lero. É uma ótima ferramenta para perfumar aquele e-mail de trabalho e não soar grosseiro com um cliente, pra fazer aquele textão de agradecimento ou de encerramento de ciclo pra farmar uns likes por ai.
Porém, eu defendo que as pessoas devem ser capazes de escrever esses tipos de coisas sozinhos. Escrever esses textos “chatos” e se desafiar a descrever processos, técnicas ou instruções, pode ajudar a sua escrita autoral, artística e criativa. Esse tipo de escrita ensina, principalmente, a editar um bom texto. Ensina a cortar, resumir e ser mais objetivo — coisas que eu devia treinar mais, inclusive, esse post está enorme.
O único lugar onde o texto do ChatGPT é 100% ético, belo e moral, e onde eu defendo seu uso a exaustão é o LinkedIn. Vamos escaralhar aquele lugar com textos que ninguém quer escrever, para um público onde ninguém quer ler, numa rede social onde ninguém quer estar. Venceremos.
Mas eu não sou um alarmista que acha que o mundo vai acabar por causa da inteligência artificial. Afinal, as coisas já estavam se encaminhando para isso. Tudo já estava indo pro caralho antes de 2022, ano do surgimento do ChatGPT. Acredito que as IAs sejam apenas a ferramenta da vez, algo que vai acelerar um pouquinho o colapso humano, social e ambiental, mas só por um tempo. Logo vamos inventar algo ainda mais potente, que vai nos deixar morrendo de saudade de um datacenter da OpenAI.
Talvez a própria IA colapse antes. Economicamente, o sistema é falho. É uma bolha que vai estourar em breve e que ainda não gera retorno sobre os altos investimentos. É um clubinho de seis empresas que ficam passando dinheiro de uma pra outra, gerando escassez de componentes, inflando preços, reinvestindo e especulando, enquanto você não consegue trocar uma placa de vídeo pra jogar Euro Truck.
Conceitualmente ela também é falha. Elas aprendem com as interações humanas, com o conteúdo criado por humanos, porém… quase 80% da internet já é conteúdo morto, criado por IAs. Tal qual uma cobrinha comendo o próprio rabo, as IAs se alimentam do lixo produzido por elas mesmas. É lindo.
Além disso, o excesso. Ninguém usa tanto a IA quanto eles acham que vamos usar. Alguns profissionais vão ser mais produtivos com elas (outros rodaram), mas a maioria das atividades ainda não tem espaço ou aplicação para encaixar uma IA. Se as IAs parassem hoje, fora pelo colapso econômico, as pessoas seguiriam suas vidas normalmente.
As pessoas normais, usam o corretor do celular, o ChatGPT pra pesquisar sobre aquela verruga estranha na virilha ou o para fazer um vídeo do Lula na praia de mãos dadas com o Bolsonaro, mas a IA não faz parte de suas vidas. Ninguém precisa de um bot de IA pra comprar camisetas num site, ninguém precisa de uma IA rodando na geladeira e, eu espero, que ninguém precise de uma conversa com a Meta IA no WhatsApp.
Mas voltando ao raciocínio inicial. Eu acredito que escrever é um ato de resistência. É uma das formas de expressão mais humanas que existem. É feeling, é autoconhecimento e um aprendizado constante. E eu não vou usar o ChatGPT, pois eu aceito que meus textos tenham erros, mas não aceito que eles não tenham alma. Até quando o texto fica ruim, ele tem algo nosso. Texto é personalidade, é bagagem, é voz.
Mas, por que continuar escrevendo se as pessoas não leem?
Afirmar que as pessoas não leem é um posicionamento tão ~facebook 2015.
As pessoas leem, talvez não sejam tantos quanto os que assistem TikTok, mas as que leem, fazem isso de verdade. Elas discutem, complementam, revisitam o texto ou discordam intensamente. Não é um consumo passivo. A maior prova disso é o sucesso de redes sociais que priorizam o texto, como o Substack e as newsletters, e algumas tentativas anteriores como foram o Medium e o Wattpad.
Para um produtor de conteúdo — e como eu odeio esse termo —porque não migrar pro vídeo ou pro podcast logo?
Primeiro, e mais óbvio, é que são linguagens diferentes, públicos diferentes e finalidades diferentes. Mas também tem os custos de produção e os hábitos de consumo, que estão em constante mudança e são cíclicos. Abandonar um formato ou mídia, só porque tem mais ou menos público, pode não soar verdadeiro, ou simplesmente não dar certo, pois tudo muda cada vez mais rápido.
O que faz sucesso no YouTube não são mais os vídeos ensaios, cheio de edições ou as esquetes do porta dos fundos, que dominaram alguns anos atrás. Até a era dos podcasts de mesa e reacts passou. Agora são os bons e velhos vlogs, pessoas mostrando suas rotinas ou fazendo lives de quatro horas, conversando diretamente com seu público.
Esse fenômeno ocorrendo no YouTube, é um ótimo indício para o texto e contra as Inteligências Artificiais. Demonstra que as pessoas estão preferindo coisas mais simples e diretas. O público pode até abraçar esse conteúdo hipnotizante por um tempo, porém ele sempre sentirá falta de um contato mais humano.
O mesmo vale para os podcasts, que não são mais recheados de vinhetas, edições ou virgulas sonoras. São só bate papo, sem muitos cortes e sem músicas pois o Spotify restringe.
Essa busca do humano pelo humano, é subconsciente. Tudo o que nos incomoda agora com os “conteúdos” criados por IA, vão passar a incomodar cada vez mais e mais pessoas, não importa o quanto as empresas refinem e aperfeiçoem essas ferramentas.
No fim, essa aposta nas IAs, é também um reflexo do desespero das empresas de tecnologia com a eminente decadência das redes sociais. Uma quantidade considerável de pessoas vai embora toda vez que elas lançam uma atualização.
Os influencers, já não vendem e não seguram o público como antes. O Instagram ficou totalmente impessoal e recheado de publicidade. O TikTok, virou um grande deposito de vídeos reaproveitados de outros lugares ou perfis de IA vendendo no TikTok Shop. No Twitter, só restou post patrocinado de bets, bots de criptomoedas e o kiko nazista, colocando todas as fichas na sua própria IA nojenta que faz deepfake de menor de idade.
Eu não sei como concluir esse texto, se eu tivesse jogado no ChatGPT eu saberia. Estou tentando terminar de forma otimista, ou pelo menos não soar como a trombeta do apocalipse.
Sobre o texto, eu posso dizer que: O texto nunca vai morrer, assim como o cinema não morreu pra TV. De novo, as newsletters são exemplos disso.
Não acho que vai ficar tudo bem, ainda tamo tudo fudido. Mas acho as coisas não vão se desenrolar como esses gurus neoliberais afirmam. O comportamento humano é imprevisível demais mesmo com trilhões de dólares sendo investidos contra ele.
No final, as bigtechs ainda vão lucrar, o planeta ainda vai pro cacete, pessoas ainda vão perder os empregos enquanto outros vendem “produtividade”. Ainda precisaremos nosso tempo de tela e dormir 8h por noite e o capitalismo ainda vai nos impedir.
Já eu, vou me manter escrevendo, sem o uso de IA, tentando manter a sanidade enquanto rolo o feed do TikTok, prometendo pela milésima vez que vou postar com mais frequência aqui no Incoerente. Eu sugiro que você faça o mesmo.
Quanto ao público? Escreva e eles virão.




